quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O outro lado da linha (Continuação)


_Vamos falar com a minha amiga_ disse Hermênia quando a sua acompanhante acabou de rezar.

_Vamos_ concordou.

Luiza é uma mulher baixa, loira e apesar das inúmeras horas que passara chorando deixando seu rosto inchado não tirava sua beleza. Ela é uma das poucas pessoas que não estavam usando óculos escuros, porém estava com uma roupa preta como os outros, – aparentava que tinha saído de casa as pressas pelo jeito que estava: trajes machucados e cabelos mal penteados. Ela e Hermênia se abraçaram e em seguida Luiza foi apresentada a Eleonora.

_Meus pêsames.

_Obrigada.

_ Do que ele faleceu?_perguntou Hermênia.

_ Foi acidente de carro _respondeu cabisbaixa._ Ele havia passado no vestibular e então seu pai tinha comprado um carro para ele. Na noite que faleceu um caminhoneiro avançou o sinal e acertou nele. Não teve chance.

As três ficaram conversando um bom tempo até que Eleonora lembrara do convite que havia recebido do rapaz do coral da igreja mais cedo, mas que estranhamente não havia banda alguma no local.

_Luiza, onde está os músicos do coral?

_O padre disse que eles estão sem banda no momento_respondeu Luiza.

_Mas e o rapaz que me convidou para missa não é do coral?

_Pensei que eu havia convidado você_ comentou Hermênia.

_Um rapaz me ligou antes para convidar.

_E qual é o nome dele?_Perguntou Luiza.

_Augusto Soarez.

Eleonora pode ver claramente o pigmento das duas a sua frente sumirem das suas peles no mesmo momento em que elas arregalaram os olhos como se tivessem visto um fantasma.

_ O que foi?!

A pergunta ficou sem resposta por um bom tempo. As duas pareciam estar ainda digerindo o que ouviram.

_ Augusto Soarez é o nome do meu falecido sobrinho.

Eleonora sentiu sua cabeça revirar com a revelação. Seu corpo ficou gelado e o coração disparou. Ela não consegui esboçar uma reação sequer naquele momento.

A família de Augusto ficou sabendo da história e se emocionaram. Mostraram fotos do rapaz e quiseram saber mais da senhora que provavelmente falou com ele pelo telefone, mas ela nunca quis falar muito sobre o assunto.

Eleonora nunca comentou com seu marido sobre esse episódio da sua vida, mas vez ou outra ela se pega pensando no fato que sua mente se recusa acreditar. Teria ela falado com o espírito do rapaz?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O outro lado da linha (Continuação)


_Mas eu..._ disse Eleonora quando desligaram o telefone do outro lado.
Ela ficou um bom tempo se perguntando quem seria esse tal Augusto e por que tanto interesse que ela fosse nessa tal missa dele. A primeira impressão que tivera foi que se tratava da pessoa que trabalhava no coral da igreja, embora não se lembrasse de alguém chamado Augusto. O fato é que ela não ficou interessada em ir nessa tal missa de alguém que ela não se lembra.

Faltando vinte minutos para a hora da missa que Eleonora fora convidada ela ouve alguém tocar a campainha da sua casa. Ela olhou no olho mágico e viu a silhueta pálida de sua melhor amiga, Hermênia.

_Oi Hermê_ cumprimentou ela sorrindo._Tudo bem?

_Tudo _ disse a amiga entrando na casa antes de ser convidada._ Eu queria te fazer um convite.

_ Qual?_ Indagou fechando a porta.

_ A igreja da Trindade ta fechada né?

_ Sim, mas qual é o convite?

_ Bom já que você não vai a sua igreja hoje, eu queria que você fosse comigo a uma missa_ respondeu Hermênia sem jeito.

_ Que missa?

_ Uma amiga me convidou, mas eu não queria ir só.

_ Onde é?

_ É na igreja de Nazaré.

Eleonora é uma pessoa que se impressiona fácil com as coisas e o fato de receber pela segunda vez o mesmo convite, concerteza a fez achar que não se tratava de apenas coincidência.

_ Que horas?_ Perguntou sentindo um frio na barriga.

_ 18 horas, to um pouco atrasada,_ Respondeu Hermênia ainda constrangida. _sei que deveria ter chamado você antes, mas é que só agora...

_Tudo bem, eu vou_ falou decidida, embora estivesse um pouco nervosa.

_Jura?! _ Perguntou animada.

_Claro, espera aqui que vou me aprontar.

_Muito obrigada mesmo_ Agradeceu Hermênia.

_Não é nada.

Quando as duas chegaram na igreja, a missa já havia começado. Elas sentaram-se na ultima fileira ao lado de um senhor que estava ajoelhado com as mãos no rosto. Notoriamente o clima no local estava triste, algumas pessoas choravam mais a frente, outras rezavam com tamanha vontade que pareciam estar desesperados. A verdade é que as únicas pessoas que realmente estavam prestando atenção nas palavras do padre eram as duas que chegaram por ultimo.

_Do que é essa missa?_ perguntou Eleonora já imaginando o que a outra responderia.

_É uma missa de sétimo dia.

_Quem faleceu?!

_Eu não sei ao certo, mas parece que foi o sobrinho da minha amiga.

As duas ouviram todas as orações que o padre fizera e no final Eleonora rezou em silêncio pelo rapaz que havia morrido.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O outro lado da linha


Essa história foi contada por uma antiga amiga. Aconteceu em Belém do Pará 10 anos atrás com uma senhora chamada Eleonora. Ela, é uma pessoa muito católica e, apesar da idade avançada nunca se restringiu a fazer sua costumeira ida a igreja como fizera desde os 30 anos. Tem os cabelos lisos e brancos até a altura do ombro e nunca sai de casa sem sua sombrinha - sugerida pelo seu médico para proteger a frágil pele que adquirira tanto pelo tempo quanto por uma rara doença que apesar não aparentar nenhum sintoma visível poderia causar sérios danos ao constante contato com o sol - e um de seus vestidos floridos que eram bordados por suas filhas.
A missa que Eleonora freqüentava era sempre feita pelo padre João aos Domingos as 16 horas na igreja da Trindade, porém no dia em questão ela ficou impossibilitada de seguir sua rotina porque as obras na fachada que haviam começado no meio da semana não tinham acabado devido um dos pedreiros que estavam trabalhando falecesse assassinado por uma briga de bar fazendo assim com que seus colegas de trabalho/amigos interrompessem seus deveres por dois dias de luto adiando o término do serviço.
Evandro, o marido de Eleonora - única pessoa que dividia a casa com ela - sempre que a esposa ia rezar ia assistir algum jogo de futebol na tevê na casa seu filho mais velho, Eduardo e nesse dia passaria justamente o jogo do time de coração dele contra o maior rival, não queria perder de jeito nenhum, mas ver que sua mulher ficaria em casa sem ter nada pra fazer o fez hesitar um pouco.
_ Você não quer ir comigo?
_ Não obrigada, eu não quero ficar lá só ouvindo gritos de vocês.
_ E você vai ficar fazendo o que aqui mulher?!
_ Eu vou ficar lendo_ respondeu Eleonora mais para relaxar o marido, pois na realidade estava sem vontade de fazer nada._ Pode ir assistir seu futebol tranquilo.
Apesar de continuar inquieto com a situação seguiu o conselho da sua esposa e saiu de casa. Não se passou nem 10 segundos quando Evandro bateu a porta o telefone tocou. "Quem pode ser essa hora?"pensou Eleonora pelo fato de todas as pessoas que conheciam o casal saberem que nesse horário, em um dia comum, eles não estariam em casa.
_Alô ! _ disse Eleonora.
O telefone ficara mudo como se alguém só quisesse ouvir a voz dela.
_Alô?! _ Insistiu ela.
Não se ouvia um ruído sequer do outro lado da linha.
Eleonora tirou o gancho do ouvido para desligar o telefone quando ouviu uma voz falar:
_Eleonora.
_Quem é?!_ Perguntou colocando o gancho novamente no ouvido.
_Aqui é Augusto Soarez.
_Eu não conheço nenhum Augusto Soarez _ pensou Eleonora.
_Eu queria que você fosse para a minha missa.
Enquanto ela ouvia a voz grave e calma a convidar conseguia escutar também o som de uma banda como se tivesse ensaiando.
_Mas da onde eu conheço você?!_Perguntou desconfiada.
_ Começa as 18 horas na igreja de Nazaré_ Respondeu Augusto com a voz embargada como se fosse chorar_Se você puder ir eu ficarei muito grato.